segunda-feira, 16 de junho de 2014

A leitura de dados como auxílio para um melhor controle da glicemia III - iBGStar

Em junho de 2013 escrevi sobre a análise de dados glicêmicos como forma de auxiliar o controle do diabetes na coluna "A leitura de dados como auxilio para um melhor controle da glicemia". Na ocasião, citei os dois leitores de dados que utilizo para este fim - o smart pix, da Roche (que faz a leitura dos dados do aparelho de medir glicemia) e o carelink, da Medtronic (que faz a leitura dos dados do sensor de glicose intersticial da bomba de infusão de insulina).



Depois de publicar essa primeira postagem, descobri que existe um aplicativo brasileiro que também possibilita a análise de dados e o estabelecimento de padrões, através de gráficos glicêmicos, e que ainda possui alerta de horários para tomar medicações e de consultas médicas. É o DMcontrol - Diabetes. Escrevi sobre ele na coluna "A leitura de dados como auxílio para um melhor controle da glicemia II - DMcontrol - Diabetes" em setembro de 2013. 


Embora os 3 sistemas apresentem cada qual suas vantagens específicas, nos gráficos elaborados pelo smart-pix e pelo carelink, os dados são obtidos exclusivamente através dos leitores (que são comprados pelo valor entre R$ 200,00 e R$500,00), e pelo DMcontrol os dados devem ser inseridos manualmente pelo usuário no sistema.

Essas dificuldades foram solucionadas pelo iBGStar da Sonofi-Aventis, aparelho de medir glicemia que pode funcionar acoplado a um iphone e dispensa leitor, pois transfere as medidas glicêmicas para um banco de dados disponível no mesmo aplicativo que faz a leitura automática desses dados, dispensando também a inserção manual das glicemias obtidas ao longo do dia.




No dia 07 de junho de 2014, a Sanofi promoveu um encontro de blogueiros em São Paulo para apresentar o produto, ressaltando duas grandes vantagens: a necessidade de pouco sangue para aferir a glicemia, e a conexão com iphone ou com ipod para medir a glicemia e para armazenar os dados no aplicativo do iBGStar.


Entretanto, não são essas as verdadeiras vantagens do iBGStar, até porque a gota de sangue requerida para medir a glicemia não é tão pequena quanto a anunciada, e porque apesar de dispensar o leitor, a elaboração dos gráficos glicêmicos pressupõe a propriedade de um iphone, que aqui no Brasil não custa menos que R$ 1.500,00 (no mínimo 3 vezes mais do que o smart-pix e o carelink), ou seja, só é vantajoso mesmo pra quem já tem o aparelho celular da apple.

Os verdadeiros trunfos do iBGStar são o tamanho diminuto do aparelho (que facilita o transporte), as fitas medidoras que prescindem de chip com código de ativação (e elimina um motivo de erro das medições bastante comum - falta de troca do chip), e o funcionamento sem necessidade de comprar pilha ou bateria, já que a bateria do aparelho recarrega na tomada.


Os gráficos glicêmicos elaborados pelo aplicativo do iBGStar podem ser enviados por email ao médico, assim como os gráficos do DMcontrol - diabetes. Já os gráficos do carelink (bomba de infusão com monitoramento) ficam armazenados numa página do paciente, que pode ser acessada diretamente pelo médico. No primeiro caso, a ferramenta de email facilita a vida dos médicos, e no segundo, a ferramenta do cadastro personalizado facilita a vida do paciente.

Mas, assim como os demais métodos de aferição e leitura de dados glicêmicos tratados nas primeiras postagens, o iBGStar possui vantagens e desvantagens. 

O aparelho é acoplável e legível apenas por smartphones com sistema IOS (iphones). Embora durante a conversa com blogueiros os representantes da Sanofi tenham se referido a uma futura versão para android (o que deveria ser também estendido para windows phone), encontrei a mesma promessa numa postagem do sítio americano Diabetes Mine, que continua sendo não cumprida.

Nessa matéria do Diabetes Mine existem 51 comentários de leitores sobre problemas variados de desabastecimento das fitas, preço dos insumos (na conversa com blogueiros não recebemos qualquer informação a respeito), problemas com a acurácia do aparelho e muitas outras queixas, mas há também muitos elogios ao iBGStar.

Mas o que me chamou a atenção mesmo foi a data da postagem: setembro de 2011. Há mais de 2 anos os americanos podem fazer uso do iBGStar, que chegou ao Brasil apenas agora em 2014. E demorou tanto pra chegar que o seu conector não é compatível com as versões mais atuais do iphone (a partir de 5), que necessitam de um adaptador.

Também não entendo o motivo da conexão do iBGStar ser possível com o iphone e o ipod, mas não com o ipad. Talvez seja pelo fato de eliminar a vantagem do tamanho menor do aparelho, mas essa é uma escolha que deveria ser do usuário, e não da empresa que comercializa o sistema.


Por estas razões, embora apresente vantagens em ser um aparelho diminuto, ter bateria recarregável e dispensar chip para leitura das fitas medidoras e leitor de dados, não vejo nada de revolucionário no iBGStar.

Revolucionário mesmo seria o aparelho que fizesse a leitura da glicemia com utilização de qualquer fita medidora, e que tirasse a gota de sangue do dedo com qualquer tipo de lanceta e lancetador. 

Desde os primeiros modelos vendidos no século passado, cada aparelho de medir glicemia tem seus próprios insumos (fitas medidoras, lancetas e lancetadores) e funcionam apenas com eles, gerando um excelente negócio de comércio de clientes cativos - incluindo nesse grupo entidades governamentais.

aparelhos, lancetadores, fitas medidoras e lancetas

Se as empresas que fabricam esses aparelhos (Sanofi, Roche, Johnson &Johnson, etc) lançassem um produto que permitisse a verificação da glicemia a partir da leitura de qualquer fita medidora, e através da punção capilar com qualquer tipo de lanceta e lancetadore, poderíamos de fato escolher o que é melhor para nós portadores de diabetes.

Isso também eliminaria os problemas que ocorrem num processo judicial ou administrativo quando o Estado pretende fornecer uma fita medidora mais barata que o aparelho do diabético não lê, e uma lanceta mais barata que não se encaixa no lancetador do paciente. 

Ou mesmo no caso de mudança da empresa fornecedora em licitações públicas, pois no modelo atual, mudando o aparelho, mudam também as fitas, lancetas e lancetadores. Com a leitura e punção universal, não seria necessário modificar as fitas, lancetadores e lancetas fornecidas, apenas e eventualmente o aparelho de medir a glicemia.

Mas este talvez seja um sonho impossível no contexto de um sistema capitalista de produzir necessidades de saúde, como vivemos atualmente, e não de produzir saúde, como precisamos.

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