segunda-feira, 4 de julho de 2016

Noções sobre hipoglicemia assintomática a partir de estudo sobre danos neurológicos

Conforme artigo publicado em março deste ano de 2016, pesquisadores da Noruega e do Reino Unido, que investigavam potencial associação entre hipoglicemia assintomática e danos neurológicos, concluíram que "Hipoglicemia assintomática em adultos com diabetes tipo 1 não está associada a disfunção autonômica ou neuropatia periférica" (em inglês: "Impaired Awareness of Hypoglycemia in Adults With Type 1 Diabetes Is Not Associated With Autonomic Dysfunction or Peripheral Neuropathy")

Este é exatamente o nome do artigo, que me chamou a atenção por negar a hipótese que formulei quando fui diagnosticada com polineuropatia periférica em 2013. Questionava se o problema teria sido causado pelas inúmeras hipoglicemias graves que sofri antes de descobrir serem assintomáticas (por volta de 2008), e de conseguir evitar as quedas mais graves da glicemia com o monitoramento contínuo da glicose.

Também me interessou bastante o fato do artigo mencionar muitos aspectos relacionados à hipoglicemia assintomática em si.

O primeiro assunto do artigo é a sua definição, ao afirmar que a hipoglicemia assintomática, definida como a diminuição da capacidade de percepção de um evento hipoglicêmico, está associada ao aumento do risco de hipoglicemias graves em pessoas com diabetes insulino-dependentes.

A falta quase total de sintomas de hipoglicemia - ou seja, a ausência de percepção ou de sinais da queda de glicemia - é o que a denuncia como "assintomática" (o próprio nome já diz, sem sintomas). 

Segundo os autores, a percepção da hipoglicemia é um fenômeno de difícil definição, mas parcialmente identificável a partir da geração de respostas fisiológicas e neuroglicopênicas, e sua interpretação correta para avisar o paciente sobre a queda glicêmica. Assim, a hipoglicemia assintomática dependeria mais da geração e interpretação dos sintomas pelo cérebro do que da intensidade dos sintomas.




Segundo o artigo, pessoas que desenvolvem hipoglicemia assintomática tem um nível menor de resposta no que tange à geração de sintomas e de percepção cognitiva quando a glicemia atinge limites mais baixos, e esta adaptação do cérebro parece ser induzida por recorrentes episódios de hipoglicemia e ainda à falha do mecanismo autonômico cerebral.

Isso significa que as pessoas que sofrem mais hipoglicemias estariam mais sujeitas a desenvolver hipoglicemias assintomáticas. De fato, enquanto me tratei com a insulina NPH (não existia outra basal), foram bastante frequentes as minhas hipoglicemias (e as hiperglicemias também).

Já li em algumas publicações que a estabilização da glicemia, evitando hipoglicemias, seria uma forma de "resolver" as hipoglicemias assintomáticas, mas essa é uma hipótese que os pesquisadores desse artigo também rechaçam, ao afirmar que evitar hipoglicemias pode resultar em maior percepção quando elas ocorrem, mas não restaura à normalidade as respostas do corpo às quedas glicêmicas.

No meu caso, depois de conseguir deixar a glicemia menos instável após o início da terapia com bomba de insulina, também consegui reduzir o número de hipoglicemias (leves e graves), e voltei a sentir alguns sintomas de hipoglicemia em certas ocasiões. Mas já aconteceu também da minha glicemia se aproximar de 50 mg/dl (durante trocas de sensor, portanto na ausência do monitoramento contínuo da glicose) e eu não perceber ou mostrar qualquer sintoma de hipoglicemia.

Quanto à probabilidade de hipoglicemia assintomática, o artigo afirma que a sua prevalência em adultos aumenta com a progressão da doença no tempo, ou seja, pessoas com muitos anos de de diagnóstico de diabetes (no meu caso 30) teriam mais chances de desenvolver hipoglicemia assintomática.



Depois o artigo relata como foi feita a pesquisa, comentam os dados colhidos e as conclusões a que chegaram a partir da coleta de dados (ressaltando que existe a necessidade de estudos maiores sobre a hipótese), que para uma leiga como eu se resumem muito bem no título: hipoglicemia assintomática em adultos com diabetes tipo 1 não está associada a disfunção autonômica ou neuropatia periférica, isto é, as minhas hipoglicemias assintomáticas não causaram o aparecimento da polineuropatia periférica.

Mas qual foi então a causa do aparecimento dessa complicação no meu caso específico? Provavelmente uma junção de fatores (entre eles descontrole glicêmico prolongado nos primeiros anos de diabetes e tabagismo), mas talvez a hipoglicemia assintomática não seja um deles.

Embora eu não seja uma profissional, com formação técnica na área de saúde, a leitura desses artigos me ajuda a entender um pouco melhor o que acontece comigo (dentro e fora do corpo), e nessa área (experiência de vida com o diabetes) tenho muitos conhecimentos "leigos" (assim como todas as pessoas com diabetes, e parentes e amigos de pessoas com diabetes), que podem ser analisados à luz de um estudo técnico. Foi o que busquei fazer nesse post.

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